AFINAL... DE ONDE VOCÊS TIRAM ESSAS IDEIAS?

O texto abaixo foi extraído da Graphic Novel V de Vingança de 2012 (a referência pormenorizada será colocada ao final da postagem). Em essência é um artigo escrito por Alan Moore. Então, vejamos... 
Sempre tem um em qualquer convenção, loja de quadrinhos ou sessão de autógrafos... um ansioso e ingênuo novato que, aproveitando uma deixa na saraivada de perguntas, ergue a mão trêmula e indaga titubeante: “De onde vocês tiram essas ideias?” Sabe o que fazemos ao ouvir essa questão?

Nós rimos zombeteiros, ironizamos e ridicularizamos o lamuriento e pequeno parvo diante de seus pares, degradamos e humilhamos completamente o infeliz e, como se não bastasse, fazemos em pedacinhos ensanguentados a sua autoestima com nosso humor cáustico e implacável. Damos a entender que apenas a verbalização de tal dúvida coloca-o de modo irrevogável no mesmo patamar intelectual de um apontador de lápis comum. Depois, quando já tivermos proferido toda e qualquer sádica insinuação sobre o patético e desprezível verme, ordenamos aos meirinhos que o levem para fora e lhe apliquem um merecido corretivo. Não, eu sei que não é nada decente, mas o dever chama e precisa ser feito.
As razões de agirmos assim são muito simples. Em primeiro lugar, no desolador e confuso lamaçal de opiniões e meias-verdades que compõe toda a crítica e teoria artística, essa é a única pergunta que merece ser formulada. Em segundo, nós não sabemos a resposta e morremos de medo que alguém se dê conta da nossa ignorância.
Uma coisa que o David Lloyd e eu sempre nos perguntamos é: “De onde tiramos a ideia de V?” Bem, vejamos, é uma pergunta bastante pertinente. Já foi muito discutida entre nós e ambos sabemos que ela merece uma resposta... ao menos para compensar nosso enigmático e desagradável comportamento em convenções e sessões de autógrafo. Acontece, porém, que realmente não nos lembramos. Eu posso garantir que todas as boas ideias foram minhas, enquanto Dave é bem capaz de trazer oito testemunhas para afiançar que eram dele.
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Ok, fico por aqui, o resto do material é bem extenso com 10 páginas sobre todo o desenvolvimento da ideia para a história de V de Vingança até a página finalizada preparada pelo David, ademais esse texto está todo intercalado com ilustrações, estudos e esboços. Mas acredite, cada parágrafo é muito interessante. Hoje esse material está nas bancas e vale a pena ter um exemplar desses à mão (como disse acima os dados da obra serão informados logo abaixo dessa postagem).
Entrementes para não deixar tudo assim à deriva, sou obrigado a invocar aqui outro grande autor para dirimir todas as questões sobre essa pergunta que não quer calar. O mestre Will Eisner no capítulo 8 dos seu livro Quadrinhos e Arte Sequencial já tratava desse processo, como segue:
Um domínio fundamental do desenho e da escrita é indispensável. Esta é uma forma de arte relacionada ao realismo, por que se propõe a contar histórias. A arte sequencial lida com imagens reconhecíveis. As ferramentas são seres humanos (ou animais), objetos e instrumentos, fenômenos naturais e a linguagem. Obviamente, um estudo sério de anatomia, perspectiva e composição, através de livros ou de cursos, constitui uma parte importante da formação. Cada uma dessas disciplinas é um estudo em si e deve fazer parte do treinamento do estudante. A leitura regular, particularmente de contos, é essencial para as habilidades de criação de enredos e narrativas. Ler ficção estimula a imaginação. Na prática, o artista “imagina” para o leitor. A leitura também constitui um importante banco de informações. Numa forma de arte em que o escritor/ artista deve dominar um amplo repertório de fatos e informações sobre inúmeros temas, a aquisição de conhecimentos é interminável. Afinal, trata-se de uma forma artística que mostra as experiências humanas.
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Bem bacana, não é mesmo? Não são considerados gênios à toa. 

REFERÊNCIAS
EISNER, Will, Quadrinhos e Arte Sequencial, 3ª ed., São Paulo, Martins Fontes, 1999. P. 145.
MOORE, Alan; LLOYD, David; CARVALHO, Helcio; ANDRADE, Levy, V de Vingança, São Paulo, Panini, 2012. P. 270.

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